Os Cegos - Pieter Brueghel

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Morte vida morte

erguia-se do chão em cacos
vazia
e levantava pé ante pé
forçando passos adiante
uma nesga de esperança brincava em seus olhos
a escuridão começava a dissipar
ouvia então o canto de um pássaro
e alguma manifestação de vida plena
nos sorrisos pueris
reconstruía-se do nada
e firmava os pés no chão
preenchia-se de luz
vislumbrava o futuro promissor
cabeça levantada em direção ao horizonte
dava vazão aos sonhos
tinha esperança afinal
ia assim até que ele 
com uma única frase
a deixava oca novamente

sem importância

ela deixava de lado seus sonhos
em detrimento de alguém
que dizia sempre:
você não se importa
ela esforçava-se por esquecer de suas promessas de adolescente:
viajar para lá, pintar para cá, cantar acolá
viver qual passarinho na primavera
esquecia-se da promessa
e ouvia: você não se importa
e em seu interior retumbava o eco de outra voz:
você não se importa consigo mesma

domingo, 10 de outubro de 2010

Ora

E se for a hora
sim senhora
sorria e deixe o sol
entrar
se for a hora
nossa senhora
de risos esquecidos
virem aconselhar
que seja a melhor hora
embora ficar
não seja a solução

Andrea Marques

E se

E se tudo fosse se
acontecesse e alguém dissesse
e se visse
diz que me disse
com desdém mentisse
nada seria em vão
nada seria em vão
tudo seria desejo
um vão de porta
reverberado silêncio
assustado feito cão
que latisse e acudisse
toda a situação
toda a situação
e o que faria
arrumaria um pensamento
abjeto
me roubaria
a calmaria
sem dizer a que seria
e confesso:
apresso logo
um recomeço

Andrea Marques

Vendaval

vivenda de sonhos
teias de renda
olhar ardente a sonhar
passado vívido
há temporais
trazem
maresia no olhar

quintal de nuvens
lúcidas clarabóias
- janelas d'alma
lapidam vasos de
pensamentos
planta os pés
na terra 
e deixa o vendaval
passar

Andrea Marques

Dolores

Acabou-se o tempo da inocência
 agora o que resta
são espinhos
Dolores
são espinhos
olhar pela fresta
de um passado remoto
nem sempre traz conforto
mas bem que tens razão
em querer sair
a esmo
e recomeçar do nada
qual chama apagada
que de suas mãos brotam
a luz
Dolores
a luz
e assim inconsequente
delinquente mulher
encontra-se do outro lado
e senta-se nas pedras
pra lamber suas próprias
feridas

Andrea Marques

Dançarina

Lembra de quando dançávamos
nos telhados
das vilas?
e quando ríamos de nada
horas a fio?
eram dias de inocência
você era sempre a bailarina
e dançava com a ponta dos pés
rodopiando
Descalços na calçada
deixamos pegadas atrás de nós
rastros de felicidade
hoje podemos voltar
sobre nossos próprios passos
para dançar novamente
e ser feliz


Andrea Marques

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Prostituição

Vendo meu ânima
meu tempo e meu potencial criativo
por 3,76 a hora
para uma grande empresa estrangeira
troco meu tempo e minha liberdade
por um mísero salário mensal
que não me permite voar
que não me permite sonhar
e meus sonhos
são jogados fora 
às terças quintas e sábados
junto com o lixo

Andrea Marques

A última fuga

Ela
previsível
fazia tudo direito
era perfeita
Um dia
se jogou de um viaduto
e morreu


Andrea Marques

Fuga

Ela
complacente
dizia sim a tudo
tão pacata
e tão singela
Um dia passou um circo
e ela fugiu com
o equilibrista

Andrea Marques

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Conversinha fiada

Senta aqui comadre
que enquanto arrumo a casa
aprumo pra gente
uma boa conversinha
de coisas que se foram
e que não voltam mais
Não liga comadre
se não olho nos seus olhos
enquanto lavo a roupa
e a alma
vou cantar aquela ladainha
pra te distrair
e depois que fizer a janta
me sentirei mais aliviada
com sensação de missão cumprida
então sonharei mais uma vez
com uma vidinha diferente
daquelas que a gente vê
em livros de conto de fadas
e pensarei que tenho um grande amor
e enquanto tiro a mesa distraída
toco furtivamente a mão
de meu marido
que assiste interessado
o jornal nacional




Andrea Marques

Criação

Réstia
de pensamento
assoma
atrás da porta
coisas incontáveis
esperam
um quase grito
ecoa
dentro da cabeça
da mulher
rasga entranha
e sai à força

Andrea Marques

Nesga de esperança

Amanhecida
logo percebe que
é chegada a hora
de despertar
ao amanhe seres
sente ainda que pequena
uma mudança vital
para todos
desperta e vê que a luz
ainda que distante
brilha


Andrea Marques

Prisão

Enquanto presa
pensa no amanhã
mas
a pequena chave
em sua mão
sangra
trazendo-a para cá
A situação:
convenções dizem sempre
que não
mas a convicção interior
clama que sim
sua vontade
é mandar tudo pro inferno

Andrea Marques

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Presa

Presa
alma feminina
vaga sem rumo
feito vagalhão
onda marinha
furacão
e o homem
prende no fundo
de si
cada réstia de luz
que brinque no olhar
da mulher



Andrea Marques

sábado, 4 de setembro de 2010

In

perdida em pensamentos
põe-se a contemplar
através da persiana
o dia ensolarado
inside

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Boa menina

Seja uma boa menina
para ganhar doces
para brincar de casinha
e sonhar com uma vidinha
limitada
E se for obediente
quando você casar
toda mágoa passa
saram todas as feridas
faça tudo o que lhe pedem
olhe sempre do mesmo jeito
para baixo
submissa mocinha
não role na grama
não corra na praia
não ame com intensidade
não vibre
não pulse
não gargalhe
não abrace um amigo
não olhe nos olhos
não tire a máscara
não desmascare
seja boazinha sempre
que a sua recompensa
será a misericórdia divina
que te olha estupefata das alturas
por nunca ter sido plena
por nunca ter se superado
por nunca ter morrido de amores
por nunca ter perdido o fôlego
de tanto correr
de tanto amar
de ver o mar
de parir
de partir
de voltar
por nunca ter se machucado
por nunca ter voado
por nunca ter vivido
por nunca ter tentado
por viver sem sentido
e quando morrer
menina
você vai para o céu


Andrea Marques

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Epitáfio

Adiante a reta
trilha insurrecta de pesadelos
adormecidos
nesga de uma derradeira lucidez
desaba
e desconstrói tudo ao redor
de tudo o mais se apossa
e transpassa sem saber
os limites mais brandos
de qualquer pensamento
Qual deixa esquecida
de atores mortos
cálculos esquálidos de sonhos tortos
ecoando em teatros vazios 
cavaleiros andantes
arrimam estradares sobre
imundos andarilhos
- percalços de esperas vãs -
rumam para além-túmulos
de poetas esquecidos
fantasmas de sonhos de reis
refulgem pálidos
e acordam depois de amanhã
débeis
ainda sem saber


Andrea Marques

domingo, 8 de agosto de 2010

Sonho

Circular
mente luz silente
infiltra janelas
assenta cincunflexas
cores retinais
Lá do alto
solta a corda
- falta coragem
lança olhares ao redor
como vim parar aqui?
cidades labirínticas
ruem
corre
lá vem o trem
seus trilhos
como fronteiras abissais
cortam a linha da realidade
ídolos colossais surgem
bocas a sugar
a imensidão
sobra o vácuo
 - acorda!
é só um sonho

Andrea Marques

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Vampira

Perfídia femme fútil
arrefece a teia invisível
ceifa desejos reprimidos
arrebata o ego masculino
cúspides a sugar o
ânima
desde tempos imemoriais
cultiva lápides mornas
nas veias-têmporas
e mais uma vez
recomeça

a caça secular


Andrea Marques