Os Cegos - Pieter Brueghel

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Prostituição

Vendo meu ânima
meu tempo e meu potencial criativo
por 3,76 a hora
para uma grande empresa estrangeira
troco meu tempo e minha liberdade
por um mísero salário mensal
que não me permite voar
que não me permite sonhar
e meus sonhos
são jogados fora 
às terças quintas e sábados
junto com o lixo

Andrea Marques

A última fuga

Ela
previsível
fazia tudo direito
era perfeita
Um dia
se jogou de um viaduto
e morreu


Andrea Marques

Fuga

Ela
complacente
dizia sim a tudo
tão pacata
e tão singela
Um dia passou um circo
e ela fugiu com
o equilibrista

Andrea Marques

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Conversinha fiada

Senta aqui comadre
que enquanto arrumo a casa
aprumo pra gente
uma boa conversinha
de coisas que se foram
e que não voltam mais
Não liga comadre
se não olho nos seus olhos
enquanto lavo a roupa
e a alma
vou cantar aquela ladainha
pra te distrair
e depois que fizer a janta
me sentirei mais aliviada
com sensação de missão cumprida
então sonharei mais uma vez
com uma vidinha diferente
daquelas que a gente vê
em livros de conto de fadas
e pensarei que tenho um grande amor
e enquanto tiro a mesa distraída
toco furtivamente a mão
de meu marido
que assiste interessado
o jornal nacional




Andrea Marques

Criação

Réstia
de pensamento
assoma
atrás da porta
coisas incontáveis
esperam
um quase grito
ecoa
dentro da cabeça
da mulher
rasga entranha
e sai à força

Andrea Marques

Nesga de esperança

Amanhecida
logo percebe que
é chegada a hora
de despertar
ao amanhe seres
sente ainda que pequena
uma mudança vital
para todos
desperta e vê que a luz
ainda que distante
brilha


Andrea Marques

Prisão

Enquanto presa
pensa no amanhã
mas
a pequena chave
em sua mão
sangra
trazendo-a para cá
A situação:
convenções dizem sempre
que não
mas a convicção interior
clama que sim
sua vontade
é mandar tudo pro inferno

Andrea Marques

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Presa

Presa
alma feminina
vaga sem rumo
feito vagalhão
onda marinha
furacão
e o homem
prende no fundo
de si
cada réstia de luz
que brinque no olhar
da mulher



Andrea Marques

sábado, 4 de setembro de 2010

In

perdida em pensamentos
põe-se a contemplar
através da persiana
o dia ensolarado
inside

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Boa menina

Seja uma boa menina
para ganhar doces
para brincar de casinha
e sonhar com uma vidinha
limitada
E se for obediente
quando você casar
toda mágoa passa
saram todas as feridas
faça tudo o que lhe pedem
olhe sempre do mesmo jeito
para baixo
submissa mocinha
não role na grama
não corra na praia
não ame com intensidade
não vibre
não pulse
não gargalhe
não abrace um amigo
não olhe nos olhos
não tire a máscara
não desmascare
seja boazinha sempre
que a sua recompensa
será a misericórdia divina
que te olha estupefata das alturas
por nunca ter sido plena
por nunca ter se superado
por nunca ter morrido de amores
por nunca ter perdido o fôlego
de tanto correr
de tanto amar
de ver o mar
de parir
de partir
de voltar
por nunca ter se machucado
por nunca ter voado
por nunca ter vivido
por nunca ter tentado
por viver sem sentido
e quando morrer
menina
você vai para o céu


Andrea Marques

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Epitáfio

Adiante a reta
trilha insurrecta de pesadelos
adormecidos
nesga de uma derradeira lucidez
desaba
e desconstrói tudo ao redor
de tudo o mais se apossa
e transpassa sem saber
os limites mais brandos
de qualquer pensamento
Qual deixa esquecida
de atores mortos
cálculos esquálidos de sonhos tortos
ecoando em teatros vazios 
cavaleiros andantes
arrimam estradares sobre
imundos andarilhos
- percalços de esperas vãs -
rumam para além-túmulos
de poetas esquecidos
fantasmas de sonhos de reis
refulgem pálidos
e acordam depois de amanhã
débeis
ainda sem saber


Andrea Marques

domingo, 8 de agosto de 2010

Sonho

Circular
mente luz silente
infiltra janelas
assenta cincunflexas
cores retinais
Lá do alto
solta a corda
- falta coragem
lança olhares ao redor
como vim parar aqui?
cidades labirínticas
ruem
corre
lá vem o trem
seus trilhos
como fronteiras abissais
cortam a linha da realidade
ídolos colossais surgem
bocas a sugar
a imensidão
sobra o vácuo
 - acorda!
é só um sonho

Andrea Marques

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Vampira

Perfídia femme fútil
arrefece a teia invisível
ceifa desejos reprimidos
arrebata o ego masculino
cúspides a sugar o
ânima
desde tempos imemoriais
cultiva lápides mornas
nas veias-têmporas
e mais uma vez
recomeça

a caça secular


Andrea Marques

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Maria mundana

Maria efêmera
sem graça
será que olhas para além
em busca do infinito
ou intimamente mergulhas
em seu egoísmo?
Queres escapar rumo
às estrelas
pois que sonhas com asas
ao invés do andor
Se buscas assim o vazio
mira com seus olhos ocos
o homem
ah nada vês
olhar emaciado
- não és humana Maria
mas insistes em
carregar paixões
imundas encruzilhadas
promessas descumpridas
rezas precipidadas
restos do nada
e assim mulher
com suas mãos espalmadas
persigna-se
em fulgaz desespero
não tens o direito Maria
apenas espera

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Aurora

Há quem tema o céu
da boca temo a vastidão da
palavra
medir o infinito em
promessas sob as estrelas
- quem dera fossem infinitas
Aurora
quanta pretensão
a idéia difusa de eternidade
não passa de minúsculo quasar
visto a olho nu
se pulsares diante
da simples idéia de vastidão
imagine a matéria sendo engolida
por um buraco negro
finita!
virão novas constelações
e mais auroras
vias lácteas suspensas
qual móbiles
infinitarão o espaço
restará de você
apenas
reverberada palavra


Andrea Marques

terça-feira, 27 de julho de 2010

Varal - Ednardo


No varal a roupa ao vento
E no vento a voz da rua
E na rua o transitar
Gente apressada a passar
Na parede o calendário
No calendário outro dia
E no dia a mesma espera
De nada esperar um dia

No umbral da porta já torta
A sombra, o sombrio olhar
E no olhar coisas mortas
Que ninguém virá velar

O assovio, o assalto
O assunto a semana inteira
Na esquina, no bar, na feira
E a roupa no seu varal
E esse dia tão normal
Tão normal, tão normal

No umbral da porta já torta
A sombra, o sombrio olhar
E no olhar coisas mortas
Que ninguém virá velar

(Ednardo meu grande poeta)

vela

vento ascende a
vela
apaga vaga ao vê-la
marejado olhar
velado cais 
em si
e percebe
a espera infinita
se vias lácteas
uma luz pálida
nada mais vela


Andrea Marques

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Incerto


De tão aberto
ventre
a boca seca
retorcida entranha
incerto
sabe-se que
todo homem é um menino
e quando cansa de ser rei
corre a chorar no colo
da mulher
Acalma
tudo passa e depois
mais nada



continho de verdade


Sob um sol dominical esperando o ônibus
uma mulher puxou um assunto trivial - nos dias de hoje
é muito comum falar sobre doenças, câncer, morte, em suma
banalidades - quando um carro passou com um axé ou seiláoque muito alto.
Num afã a mesma considerou que um som tão alto
só poderia causar problemas de audiência.



gris

numa quase noite
você diz - com um Je t'aime atravessado
na garganta
que não me quer mais
o mundo como numa água-forte de Picasso
gris