perdida em pensamentos
põe-se a contemplar
através da persiana
o dia ensolarado
inside
Os Cegos - Pieter Brueghel
sábado, 4 de setembro de 2010
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Boa menina
Seja uma boa menina
para ganhar doces
para brincar de casinha
e sonhar com uma vidinha
limitada
E se for obediente
quando você casar
toda mágoa passa
saram todas as feridas
faça tudo o que lhe pedem
olhe sempre do mesmo jeito
para baixo
submissa mocinha
não role na grama
não corra na praia
não ame com intensidade
não vibre
não pulse
não gargalhe
não abrace um amigo
não olhe nos olhos
não tire a máscara
não desmascare
seja boazinha sempre
que a sua recompensa
será a misericórdia divina
que te olha estupefata das alturas
por nunca ter sido plena
por nunca ter se superado
por nunca ter morrido de amores
por nunca ter perdido o fôlego
de tanto correr
de tanto amar
de ver o mar
de parir
de partir
de voltar
por nunca ter se machucado
por nunca ter voado
por nunca ter vivido
por nunca ter tentado
por viver sem sentido
por viver sem sentido
e quando morrer
menina
você vai para o céu
Andrea Marques
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Epitáfio
Adiante a reta
trilha insurrecta de pesadelos
adormecidos
nesga de uma derradeira lucidez
desaba
e desconstrói tudo ao redor
de tudo o mais se apossa
e transpassa sem saber
os limites mais brandos
de qualquer pensamento
Qual deixa esquecida
de atores mortos
cálculos esquálidos de sonhos tortos
ecoando em teatros vazios
cavaleiros andantes
arrimam estradares sobre
imundos andarilhos
- percalços de esperas vãs -
rumam para além-túmulos
de poetas esquecidos
fantasmas de sonhos de reis
refulgem pálidos
e acordam depois de amanhã
débeis
ainda sem saber
Andrea Marques
domingo, 8 de agosto de 2010
Sonho
Circular
mente luz silente
infiltra janelas
assenta cincunflexas
cores retinais
Lá do alto
solta a corda
- falta coragem
lança olhares ao redor
como vim parar aqui?
cidades labirínticas
ruem
corre
lá vem o trem
seus trilhos
como fronteiras abissais
cortam a linha da realidade
ídolos colossais surgem
bocas a sugar
a imensidão
sobra o vácuo
- acorda!
é só um sonho
Andrea Marques
mente luz silente
infiltra janelas
assenta cincunflexas
cores retinais
Lá do alto
solta a corda
- falta coragem
lança olhares ao redor
como vim parar aqui?
cidades labirínticas
ruem
corre
lá vem o trem
seus trilhos
como fronteiras abissais
cortam a linha da realidade
ídolos colossais surgem
bocas a sugar
a imensidão
sobra o vácuo
- acorda!
é só um sonho
Andrea Marques
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Vampira
Perfídia femme fútil
arrefece a teia invisível
ceifa desejos reprimidos
arrebata o ego masculino
cúspides a sugar o
ânima
desde tempos imemoriais
cultiva lápides mornas
nas veias-têmporas
e mais uma vez
recomeça
a caça secular
Andrea Marques
arrefece a teia invisível
ceifa desejos reprimidos
arrebata o ego masculino
cúspides a sugar o
ânima
desde tempos imemoriais
cultiva lápides mornas
nas veias-têmporas
e mais uma vez
recomeça
a caça secular
Andrea Marques
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Maria mundana
Maria efêmera
sem graça
será que olhas para além
em busca do infinito
ou intimamente mergulhas
em seu egoísmo?
Queres escapar rumo
às estrelas
pois que sonhas com asas
ao invés do andor
Se buscas assim o vazio
mira com seus olhos ocos
o homem
ah nada vês
olhar emaciado
- não és humana Maria
mas insistes em
carregar paixões
imundas encruzilhadas
promessas descumpridas
rezas precipidadas
restos do nada
e assim mulher
com suas mãos espalmadas
persigna-se
em fulgaz desespero
não tens o direito Maria
apenas espera
sem graça
será que olhas para além
em busca do infinito
ou intimamente mergulhas
em seu egoísmo?
Queres escapar rumo
às estrelas
pois que sonhas com asas
ao invés do andor
Se buscas assim o vazio
mira com seus olhos ocos
o homem
ah nada vês
olhar emaciado
- não és humana Maria
mas insistes em
carregar paixões
imundas encruzilhadas
promessas descumpridas
rezas precipidadas
restos do nada
e assim mulher
com suas mãos espalmadas
persigna-se
em fulgaz desespero
não tens o direito Maria
apenas espera
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Aurora
Há quem tema o céu
da boca temo a vastidão da
palavra
medir o infinito em
promessas sob as estrelas
- quem dera fossem infinitas
Aurora
quanta pretensão
a idéia difusa de eternidade
não passa de minúsculo quasar
visto a olho nu
se pulsares diante
da simples idéia de vastidão
imagine a matéria sendo engolida
por um buraco negro
finita!
virão novas constelações
e mais auroras
vias lácteas suspensas
qual móbiles
infinitarão o espaço
restará de você
apenas
reverberada palavra
Andrea Marques
da boca temo a vastidão da
palavra
medir o infinito em
promessas sob as estrelas
- quem dera fossem infinitas
Aurora
quanta pretensão
a idéia difusa de eternidade
não passa de minúsculo quasar
visto a olho nu
se pulsares diante
da simples idéia de vastidão
imagine a matéria sendo engolida
por um buraco negro
finita!
virão novas constelações
e mais auroras
vias lácteas suspensas
qual móbiles
infinitarão o espaço
restará de você
apenas
reverberada palavra
Andrea Marques
terça-feira, 27 de julho de 2010
Varal - Ednardo
No varal a roupa ao vento
E no vento a voz da rua
E na rua o transitar
Gente apressada a passar
Na parede o calendário
No calendário outro dia
E no dia a mesma espera
De nada esperar um dia
No umbral da porta já torta
A sombra, o sombrio olhar
E no olhar coisas mortas
Que ninguém virá velar
O assovio, o assalto
O assunto a semana inteira
Na esquina, no bar, na feira
E a roupa no seu varal
E esse dia tão normal
Tão normal, tão normal
O assunto a semana inteira
Na esquina, no bar, na feira
E a roupa no seu varal
E esse dia tão normal
Tão normal, tão normal
No umbral da porta já torta
A sombra, o sombrio olhar
E no olhar coisas mortas
Que ninguém virá velar
A sombra, o sombrio olhar
E no olhar coisas mortas
Que ninguém virá velar
(Ednardo meu grande poeta)
vela
vento ascende a
vela
apaga vaga ao vê-la
marejado olhar
velado cais
em si
em si
e percebe
a espera infinita
se vias lácteas
uma luz pálida
nada mais vela
Andrea Marques
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Incerto
De tão aberto
ventre
a boca seca
retorcida entranha
incerto
sabe-se que
todo homem é um menino
e quando cansa de ser rei
corre a chorar no colo
da mulher
Acalma
tudo passa e depois
mais nada
continho de verdade
Sob um sol dominical esperando o ônibus
uma mulher puxou um assunto trivial - nos dias de hoje
é muito comum falar sobre doenças, câncer, morte, em suma
banalidades - quando um carro passou com um axé ou seiláoque muito alto.
Num afã a mesma considerou que um som tão alto
só poderia causar problemas de audiência.
gris
numa quase noite
você diz - com um Je t'aime atravessado
na garganta
que não me quer mais
o mundo como numa água-forte de Picasso
gris
domingo, 25 de julho de 2010
Outra
Sou apenas mais uma
entretantas -
bocas abertas
entre atos
Sêmen estéril a escorrer
na pele de outra
(poema de dor e falta de querer doar)
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Sertão mulher
quero todas as maçãs
agridoce perfume
cheiro de orvalho matinal
dar um basta ao não
quero sentir
de repente
sertão
mulher
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Acorde!
acordes acordada
vibrante cantata
relevante Sol
À passarada
cantabile sinfônica
encore!
nos galhos-pentagrama
pios bemóis
Ao entardecer
quase em Lá maior
< a cigarra arrefece >
e se esvai em Do.
- entre tantas noitinhas
ouvi grilos em staccato
incertos enamorados
de uma
semi lua colcheia
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Poema para Niltinho
Sonhava alto:
- de cima da perna de pau
via o que ninguém via
O mundo era mais colorido
sobre a pernalta
luzes sem ribalta
parlapatão de Paranapiacaba
Quando passava
preenchia os lugares vazios
comuns
saltimbanco sem picadeiro
Um dia pelo dinheiro -
teve de deixar de sonhar ali:
o circo desabou
o riso acabou
teve de se mudar
imundos
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Entreatos
Um dia
sob versiva claridade
emergi ao espaço cênico
estreei
Entreferas
subia ao palco e pensava domar
a condição feminina
Qual nada
- ao anoitecer sob vigília
deixava de ser menina
amanhecida
mulher
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Falta do que ser
Pessoas são estranhas
lutam por sonhos que não são seus
e levam tão à sério...
será que a louca sou eu?
será que a louca sou eu?
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Queda
Surjo sem querer
verticalmente ao Sol
Ases me arrebatam à hora
morta de voar
- narciso decadente e solitário
sinto uma lacuna
em lugar da palpitação
o cheiro de mofo inebria
os castelos assombrosos de meu pensamento
palram pássaros colossais
a língua jamais falada
e eu, nua
dispo cada palavra
Noite sem fim
Não se sabe se é dia
à noitinha
em Paranapiacaba
onde as brumas
se deitam
Não se sabe se ainda há vida
quando chega a noite
e a tempestade
Mas se ouvem passos
nas calçadas enlameadas
E sussuros vindos do lado de lá
Há mortos vivos em toda a parte
perdidos de si
sem alma
Vidas pela metade
à espera
de algo que nunca virá
à noitinha
em Paranapiacaba
onde as brumas
se deitam
Não se sabe se ainda há vida
quando chega a noite
e a tempestade
Mas se ouvem passos
nas calçadas enlameadas
E sussuros vindos do lado de lá
Há mortos vivos em toda a parte
perdidos de si
sem alma
Vidas pela metade
à espera
de algo que nunca virá
Andrea Marques
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