Os Cegos - Pieter Brueghel

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Utopia

Quisera voar...
mal sei andar sobre minhas pernas


Andrea Marques

Versinho de infância

Felicitá
embora sumida

embola rola

um riso
pueril

Andrea Marques

O que fizemos de nós? - pintura poética

Pairam ainda prosas
             ar
no                    risos suspensos
Versos descabidos do que fomos
pra onde?
Hoje
somos palhaços de nós mesmos
findo mudos
num circo de ponta cabeça
sem domadores
dissimulando verdades                          
                         in   
                            digestas                    
não sendo

Andrea Marques

Encéfalo eclíptico - pintura poética

o
eclipse cerebral
afunila a
             Cria

                             t

                             i

                               VIDA

                             d

                             e
reproduz fluidos
vídeo ilógicos
em vitrines ence...fálicas
veias pulsam assim
tétricas
assimétricas
repulsa
mediocridade

Andrea Marques

queda - pintura poética

c
  a
    i
     o
        en mim
           saio

Andrea Marques

Origem da Luz - pintura poética

Atmosferatômica
Éter poeira cômica
Celeste veste lunar
Velhas constelações

Libam o caos

Nix, prenha do Firmamento
regorgita semen-tes
Parirá em vias-lácteas dessertas
encarceradas estrelas-do-mar

Andrea Marques

Abortar - pintura poética

Insurgida
prAfora
nEgo afogo
Á tona
Aporto um mar
AnCoro
e não caibo em Sol
Biocosturados
ilhós almáticos
a-mada
sépala palatal
prestissimo
a tiro em ti
deste nada
a feto
de mim

Andrea Marques

Resquícios pueris

Longos braços da madrugada
se debandam pra depois de amanhã
afogando o hoje em talvez
Ébrios de viciantes nãos
giramos ao sabor da nave
Mãe!
Encapsulados
tecemos teias de aranha estáticas
Em tempo:
- Colhíamos, pueris, o sol poente
E costumávamos ouvir
O solo de um sabiá -
sibilantes cancionetas
Palrávamos pirateando a estibordo
- aprendizes de faz-de-conta -
em tempestuoso barlavento
O que se perdeu no tempo
se dissolveu em brumas incensais
Saltimbancos em bandos
trouxeram entrementes
Sonhos
que deixamos para trás

Andrea Marques

Madame Hortense à Kazantzakis


Casas assobradadas
assombrados imbuzeiros
Pássaros passam
passeiam à volta
perdem a noção do tempo
O sol de Creta vem descendo
deitando a dama da noite em seu ventre
tudo recende a mofo e a perfume barato
As estrelas vigiam noturnas
Silêncio
O véu da noite abre-se tal qual picadeiro
O vento exala o cheiro de Bubulina
sereia decadente convidando ao amor
Surgiu a Aurora horizontal
clareou as janelas
clareou a vida
e Zorba dança na areia de Creta

Andrea Marques

Sonho de Afrodite

Alçada alma
orbito entre sóis celestiais
entre deuses
entes dementes
dentre mortais
Não fosse loucura me mudaria
muda às esferas
fugiria à fera que me atormenta
desalento da carne
Não fosse você
alçaria um vôo cego
rumo ao caos
alento de meu ser
Seria flor que brotava nua
na encosta fria
Seria serena sereia
madeixas de medusa
seios apontando o óbito
lábios apocalípticos
Chamava-te a meu regaço
cantava-te cantigas antigas
sobre lânguidas brumas
valentes navegantes
reis depostos
Ah, não sou sereia
Vagueio devagar
pisando leve nas pedras do caminho
para não acordar os espinhos
que dormem
Ouviria ao longe cantigas
antigas de sonhos despedaçados
e princesas impotentes
Ouviria
não fosse o mel quente que expele
a escorrer no abismo
a saciar-me a sede
absinto
sonhos psicodélicos
soturna, acordo
   
Andrea Marques

Eco

Arremedada a voz do vento
vagueia à volta
Ventania abissal
rodopiando voz velada
revelada vendaval
Grito
o abismo
repele o som
A voz que o vento
levou
           lenta 
solta             retumba          
volta
v e r t i d a  e m  s o n s

Andrea Marques

A Marcha por Renato Schiavo

As pedras sob meus pés desnudos,
recobrem a estrada, o chão, a terra e minha visão.
Ao final do pequenino ponto do crepúsculo,
vejo a figura humana,
em sua silhueta luminosa,
como um farol a sinalizar os mares trepidantes e negros.
No avançar doloroso,
minhas pernas hesitantes caminham sem vontade...
Vibram...
Seus nervos inflamados e o vermelhidão sangüineo marcham,
pé ante pé, olhos sem piscar.
Um músculo de sangue me move,
que voluntariamente pulsa.
O desenho espectral toma forma,
delineia-se, move-se.
Ergue uma mão,
que aguarda a minha,
a arrancar-me do caos, em direção ao cosmos.


Nascimento e morte das fadas

A pinceladas penteio
o cabelo do vento noroeste
Catavento
Vôo na cabeleira da brisa
gangorra das deusas
Pulo as ondas do tempo
que comandam encapeladas
Ampulhetas
Nas horas mortas
Fazia-se amor com as borboletas
Que emprenhavam de homens puros
Em seus casulos geravam fadas
Aladas
Que morriam ao amanhecer
Por se saberem desacreditadas

Andrea Marques

Velho Vilarejo

Cruas marginais do tempo
sopram em versos brandos sibilando vento
E o que ficou pra trás?
Tormentos
E o que ficou pra trás?
Tempo
Implacável como a vida
haveria de terminar
Ais, lamentos
Sentimentos vastos, tolhidos
ungüentos
Hipocrisias deixadas pra trás
Velhos mortos velhas ruas velhas nuas
Cruas encruzilhadas se cruzam 
roda do viradouro gira gira
sem tempos vindouros
Roda, só roda
Não sai do lugar
E fica
Às margens dos tempos

Andrea Marques






Entrelinha II

Cerra férrea boca
embocadura
A dentadas fere a fera indomada
- palavra -
Numa erupção o grito
rebenta a grade dentária
e jorra verbo desanda o berro
numa interjeição
afogada palavra

Andrea Marques

Entrelinha I

Hermética minha boca
fecha: - labaredas de fogo
Língua
Trapos farrapos fiapos de palavras
desfiam na pauta do vento
Rima
Reverso verso branco da linha
férrea atrela à entrelinha
Reluz brilhando andaluz
estrelinha

Andrea Marques