Os Cegos - Pieter Brueghel

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Sertão mulher

quero todas as maçãs
agridoce perfume
cheiro de orvalho matinal
dar um basta ao não
quero sentir
de repente
sertão
mulher


sexta-feira, 28 de maio de 2010

Acorde!



Manhãzinha
acordes acordada
vibrante cantata
relevante Sol
À passarada
cantabile sinfônica
encore!
nos galhos-pentagrama
pios bemóis
Ao entardecer
quase em Lá maior
< a cigarra arrefece >
e se esvai em Do.
- entre tantas noitinhas
ouvi grilos em staccato
incertos enamorados
de uma
semi lua colcheia

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Poema para Niltinho

Sonhava alto:
- de cima da perna de pau
via o que ninguém via
O mundo era mais colorido
sobre a pernalta
luzes sem ribalta
parlapatão de Paranapiacaba
Quando passava
preenchia os lugares vazios
comuns
saltimbanco sem picadeiro
Um dia pelo dinheiro -
teve de deixar de sonhar ali:
o circo desabou
o riso acabou
teve de se mudar
imundos

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Entreatos

Um dia
sob versiva claridade
emergi ao espaço cênico 
estreei 
Entreferas
subia ao palco e pensava domar
a condição feminina
Qual nada
- ao anoitecer sob vigília
deixava de ser menina
amanhecida 
mulher

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Falta do que ser

Pessoas são estranhas
lutam por sonhos que não são seus
e levam tão à sério...
será que a louca sou eu?

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Queda

Surjo sem querer
verticalmente ao Sol
Ases me arrebatam à hora
morta de voar
- narciso decadente e solitário
sinto uma lacuna
em lugar da palpitação
o cheiro de mofo inebria
os castelos assombrosos de meu pensamento
palram pássaros colossais 
a língua jamais falada
e eu, nua 
dispo cada palavra

Noite sem fim

Não se sabe se é dia
à noitinha
em Paranapiacaba
onde as brumas
se deitam
Não se sabe se ainda há vida
quando chega a noite
e a tempestade
Mas se ouvem passos
nas calçadas enlameadas
E sussuros vindos do lado de lá
Há mortos vivos em toda a parte
perdidos de si
sem alma
Vidas pela metade
à espera
de algo que nunca virá

Andrea Marques

Noitinha

Quem tira pra dançar
a dançarina
ao som de Pan
tem asas nos pés de planta
e louros na cabeça
troca a flauta oca
por um bom pé-de-valsa
Quem valsa
sem saber dançar
resfolega
feito siriri ao por do sol:
- perde as asas
para o anoitecer
e as brumas vêm e vão
todos os dias
dançar mais uma vez
anoitecida

Andrea Marques

Fiar

Roca a fiar
entrementes
fi o s  de  pe n s a m e n t o    
 - tramas -
tece comentários
desfia palavras

ao
v   e   n   t   o

São Paulo, a terra da... tempestade

Nuvem vem mansa
liquefaz o dia
Olhares transbordam
em São Paulo
Ruidoso temporal
elétrico, traz vendaval
-Corre, tira a roupa do varal!
Gosto quando a chuva escorre no meu rosto
gosto de sentir o cheiro da chuva na terra...
asfalto
-deixa chover!
é perigoso falar assim
aqui
- onde nada escoa
nada escorre
imunda!
onde qualquer pingo pode ser
a gota d'água

Andrea Marques

Onde vivem os monstros - comentário

Me emocionei muito com o filme "Onde vivem os monstros". É impressionante como o diretor Spike Jonze consegue todo o clima da infância sem máscaras, numa atmosfera sincera de como é ser criança. Quem não se sentiu assim quando criança? Eu me lembro que eu só queria crescer e ser adulta, tamanha era a carga de ser criança pra mim. Nunca tive voz, nunca tive vez, tinha que mendigar os restos do amor dos meus pais, tinha que conviver com a agressividade das minhas irmãs, do mundo externo e, principalmente, interno: minha casa. Ser criança para mim era uma tortura. Eu via e ouvia coisas, dormia sempre com medo do escuro, do que o escuro guardava, do silêncio mortal da noite. Invariavelmente acordava assustada e gritando, mas ninguém vinha, eu nunca dormi na cama dos meus pais quando ficava com medo. Não sentia o calor da família. Mesmo quando adolescente ainda não conseguia me expressar, minha mãe sempre me mandava calar a boca, sempre me olhava com reprovação. Crescer não foi fácil. Mas apesar de tudo eu ainda consegui ter uma infância com muitas brincadeiras, muitas invenções e não deixei os problemas me bloquearem. Hoje sou quase normal... não ofereço riscos reais à sociedade...rs Mas muitas pessoas trazem seqüelas da infância. Eu tenho minhas máculas que procuro controlar, esconder, reprimir. Afinal, não podemos viver do passado.
Bom, eu só queria dizer que esse filme despertou todas as sensações da infância novamente em mim. Eu me sentia tal qual o Max e revivi tudo isso assistindo ao filme. E gostei muito. É bom para pensarmos em como agimos com nossas crianças. Como as reprimimos, assustamos, em como somos cruéis, covardes. Queremos sempre nos sobrepujar às vontades, aos desejos das crianças. É uma forma de nos sentirmos dominantes, adultos... Pensemos então como as crianças e vamos refletir sobre esse filme. Acredito que o mundo será muito melhor se mudarmos nossas atitudes perante os pequenos e indefesos.

Ângulo

Olho redondamente
aos arredores
dores
Pensei que morrias de amores
me desprezas como eu não queria
chorei tantas lágrimas
lástimas
Mas eis que, paralelamente
olhei através, acima
panopticamente

vi

Andrea Marques

Versinho de voar antes de morrer

Vendas ocultam
olhares sóbrios à procura
que
tudo vêem mesmo em brumas
Ah se eu fosse
seria um canário
voaria alto ao campanário
e calaria os sinos

Andrea Marques

Tempo


Às vezes tenho
tempo às vezes tempo
nem sempre
tenho
tempo corre foge
lança tantas horas
ao vento
tento fugir
mas o tempo escapa
entre os dedos
tempo lento
faz a volta
olha a hora!
- ainda está em
tempo.
Com o passar das horas
passarelamente
ando paralela
ao sabor do vento
Nem sempre solto
às vezes curto
é sempre assim:
acabou o tempo
Ando sem relógio
sem saber das horas
impróprias
de se fazer cachinhos
de falar bobagem
grito impropérios
ao sabor do vento
Quero que numa ventada
o tempo leve
o que eu já sofri
Tempo corre solto
às vezes é tão rápido
O tempo nunca pára
e o relógio corre parado
O tempo determina tudo
O que falamos o vento leva
o que somos o tempo leva
deixamos para trás apenas as impressões
a pessoalidade
quando se é importante
se fomos alguém na vida
o tempo não nos apaga
ao contrário
se passamos
como as páginas de um livro
em branco
o tempo é implacável
ali mesmo acabamos
antes mesmo de morrer

Andrea Marques

Sem título

Um dia pensava que
Era
atuava em um circo
andava em circulos
e me sabia infeliz
Certo dia subtraí-me
do nada
Restei

Andrea Marques

Ida

Vou
Através de montanhas nevadas
Campinas
Me dispus a partir
A morte me assusta às vezes
Mas vou
Experimentar novos frutos
O mel das flores
Me dispus a lutar dessa vez
Vou
Travar mais uma batalha
E vencer 

Andrea Marques

Labirinto

Você viu o que fez?
pegou meu amor
trancou e rotulou de
- Meu!
se apossou assim de cada sentimento
de cada palavra
de meu olhar
se apropriou de meu corpo
de meus pensamentos
e quando vi
eu estava em pedaços
era inteira sua

Me perdi no labirinto
do seu olhar
me perdi pelo seu cheiro
me perdi de mim
e não sei mais voltar



Andrea Marques

Intransigência

Renego
impávido eu retirado à força
de mim
à custa da Imagem
Nego
deslocado            eu
trancado à força
à custa da Igualdade
dentro de mim
Ego
mantenho afastado
qual sociopata
à custa da Materialidade
longe de mim
e abdico
do caminho traçado
da impessoalidade
Sendo!

Andrea Marques
Andrea Marques

Ego sem sentido

Corrompo as regras
e num arroubo
caio em Si
Salto mais alto e vejo
além da ignorância
Será que essa mesmice dura?
Dura realidade
Até quando tenho que dissimular o que sou
guardo escondido meu
Eu
Qualquer dia desses
ejeto de mim


Andrea Marques

à escuridão

Quando nascemos
pisamos com pés descalços
a lama do mundo
Alguns, ainda
se impregnam do lodo
mesmo depois de saberem...
Percebi que às vezes
não tenho a quem chorar
então, talvez haja resignação
em saber que nada aqui é para sempre
Quando nascemos uma rosa louca
Pariu sementes dementes
Entrementes inalava-se o odor lúgubre
- dos brejos sem flores -
que exala agora
Da boca do homem
Quando fomos paridos
Partiu-se o coração
A Mãe pereceu
Os seres partiram para depois de amanhã
E fez-se noite

Andrea Marques